Campeão improvável da Premier League em 2016, clube vê crise financeira e decisões ruins de gestão levarem a um dos capítulos mais duros de sua história recente.
Por: Lucas Vargas

O Leicester City vive um dos momentos mais dolorosos de sua trajetória. Dez anos depois de surpreender o mundo do futebol ao conquistar a Premier League de forma quase inacreditável, o clube teve confirmado seu rebaixamento para a terceira divisão inglesa. A queda foi selada após o empate em 2 a 2 com o Hull City, resultado que encerrou de vez as chances de permanência na Championship.
A imagem é pesada para um clube que, em 2015/16, protagonizou uma das campanhas mais marcantes da história do esporte. Naquele ano, o Leicester quebrou previsões, superou gigantes do futebol inglês e levantou o título nacional com um elenco que se tornou símbolo de superação. Nomes como Jamie Vardy, Riyad Mahrez, N’Golo Kanté e Kasper Schmeichel entraram para a história do clube e do futebol mundial.
Mas o cenário atual é completamente diferente. O rebaixamento à League One não aconteceu por acaso nem de forma isolada. Ele é resultado de uma sequência de erros esportivos, administrativos e financeiros que foram se acumulando nos últimos anos.
Depois do título inglês, o Leicester ainda conseguiu se manter competitivo por um bom período. O clube fez campanhas seguras na Premier League, disputou competições europeias e voltou a conquistar um troféu importante em 2021, quando venceu a Copa da Inglaterra. Além disso, conseguiu manter parte da base campeã por bastante tempo, com Jamie Vardy se tornando um dos grandes ídolos da era moderna do clube.

A virada negativa começou a se consolidar com a queda para a segunda divisão em 2023. Mesmo naquele momento, o Leicester ainda chamava atenção pelo tamanho da folha salarial. O clube tinha a sétima maior folha da Premier League e, ao ser rebaixado, passou a ter a maior folha salarial já registrada por um clube da Championship. Houve redução de gastos, mas mesmo assim os custos continuaram em um nível muito acima do padrão da divisão.
O grande problema é que o clube não se preparou adequadamente para a nova realidade financeira. A diferença entre disputar a Premier League e a Championship é enorme. Na elite, mesmo os times da parte de baixo da tabela recebem cifras altíssimas em direitos de televisão. Na segunda divisão, esse valor despenca drasticamente. Além disso, patrocínios diminuem, receitas de bilheteria encolhem e o poder de investimento passa a ser muito mais limitado.
Mesmo com o retorno à Premier League na temporada 2023/24, o Leicester não conseguiu reorganizar sua estrutura. A campanha seguinte foi fraca, e o clube voltou a ser rebaixado, terminando muito atrás da zona de permanência. Como se o desempenho esportivo já não fosse suficiente para agravar a crise, veio ainda a punição de seis pontos por descumprimento das regras financeiras do futebol inglês.
A sanção foi aplicada por causa de violações nas normas de lucro e sustentabilidade, analisadas em um período de três anos encerrado na temporada 2023/24. O clube considerou a punição desproporcional, mas o impacto na tabela foi decisivo e acelerou ainda mais a queda. Em uma divisão tão equilibrada, perder seis pontos representa um golpe difícil de absorver.
Nos bastidores, a pressão também aumentou. O presidente Aiyawatt Srivaddhanaprabha, conhecido como “Top”, o diretor de futebol Jon Rudkin e a ex-CEO Susan Whelan passaram a ser apontados por boa parte da torcida como os principais responsáveis pela situação atual. Desde o último rebaixamento, protestos no King Power Stadium se tornaram cada vez mais frequentes, refletindo a insatisfação com a condução do clube.
A história do Leicester, que há dez anos era contada como um milagre do futebol moderno, agora ganha contornos de alerta. O clube que surpreendeu a Inglaterra e encantou o mundo vê sua realidade mudar radicalmente em pouco tempo. Da glória máxima nacional à terceira divisão, o desafio agora será reconstruir não apenas o elenco, mas toda a estrutura esportiva e financeira.
O Leicester ainda carrega uma torcida apaixonada, uma história recente marcante e uma lembrança que dificilmente será apagada. Mas, neste momento, o clube terá de olhar menos para o passado glorioso e mais para a reconstrução urgente que precisa fazer para evitar um afundamento ainda maior.

